MÉTRICAS · COMPOSIÇÃO CORPORAL
Proteína corporal: a retenção nitrogenada real
Proteína corporal total é a massa somada de todas as proteínas do corpo — da miosina do músculo à albumina do plasma, do colágeno da pele às
enzimas do fígado. Num homem de referência de 70 kg, é da ordem de 10 a 11 kg.
Não existe estoque de proteína no corpo. Gordura é reserva. Proteína, não: cada grama tem um emprego — contrair, transportar, catalisar,
defender. Perder proteína corporal nunca é queimar reserva. É demolir maquinário funcionante.
A assinatura química que a torna mensurável: proteína é o único macronutriente que carrega nitrogênio — cerca de 16 % da sua massa, daí o fator
clássico de 6,25. Medir nitrogênio é medir proteína, desde Kjeldahl, em 1883.
01 · Composição corporal
Como a Evolt mede
O padrão-ouro é a análise por ativação de nêutrons in vivo, restrita a poucos centros de pesquisa no mundo.
O método clássico de enfermaria é o balanço nitrogenado — o que entra menos o que sai.
Na clínica, a bioimpedância multifrequencial usa o modelo molecular: massa livre de gordura é água mais proteína mais mineral.
A água intracelular, lida em alta frequência, ancora a massa celular — e **o nitrogênio corporal anda junto com o compartimento intracelular,
porque a célula é onde mora a proteína metabolicamente ativa.**
O índice da folha responde, portanto, a uma pergunta diferente da ingestão: não "quanto você comeu", mas quanto tecido proteico o corpo está de
fato segurando.
Como ler — os números
Primeiro, a física do tempo: proteína corporal muda devagar. O corpo renova da ordem de 250 a 300 g de proteína por dia, mas recicla a imensa
maioria dos aminoácidos. O saldo líquido de tecido novo, mesmo em anabolismo agressivo, é de gramas por dia.
A regra que resolve metade das leituras: qualquer variação grande de massa magra em dias ou em uma ou duas semanas é água, por definição fisiológica.
Quando a proteína se move de verdade, moveu-se tecido.
As quatro leituras cruzadas:
proteína em alta, BCM em alta, ICW em alta proporcional. O protocolo está incorporando nitrogênio.
Manter e documentar.
massa magra em alta com proteína e BCM estáveis. Água extracelular inflando a massa magra. Investigar;
não celebrar.
proteína em queda com peso estável. O motor está sendo demolido e coberto por água ou gordura.
O padrão mais perigoso.
ingestão proteica alta com proteína corporal parada. O estímulo não converte em retenção.
Rever dose por refeição, treino e eixo hormonal.
Sob tratamento
Sob tirzepatida ou semaglutida, é a proteína que abre a caixa-preta da "massa magra" do DEXA.
Peso em queda com proteína em queda em série é catabolismo proteico real — proteína dietética de 1,6 a 2,2 g/kg/dia, treino resistido e
reavaliação em 30 a 60 dias. Peso em queda com massa magra em queda mas proteína estável é perda majoritariamente hídrica — o tratamento está
funcionando.
Na TRT masculina, a referência é Bhasin (NEJM, 1996): testosterona produziu 3,2 kg de massa livre de gordura sem treino e 6,1 kg com treino,
contra 1,9 kg do treino sozinho. A armadilha das primeiras semanas: a aromatização retém água antes de existir tecido novo.
O índice de proteína é o que data o início do anabolismo verdadeiro.
No GH, a revisão de Liu (Annals, 2008) mostrou o padrão que o define: massa magra sobe, força não, e parte relevante do ganho é fluido.
Proteína e BCM são o detector que separa o efeito hídrico do tecido contrátil.
Corticoterapia é o espelho invertido do GLP-1: proteína em queda com peso estável ou subindo.
O paciente engorda no peso enquanto derrete tecido por baixo.
Creatina é o falso positivo benigno: ICW e massa magra sobem no primeiro mês sem proteína subir — volumização intracelular.
O ganho tecidual só se confirma quando a proteína acompanhar.
O que todo mundo erra
"O índice mostra quanta proteína eu como." Mostra quanta proteína o corpo reteve como tecido.
A divergência entre os dois é justamente o achado clínico.
"Quanto mais proteína, mais o corpo retém." Existe teto: a meta-análise de Morton (2018) situa o platô em cerca de 1,6 g/kg/dia, com limite
superior por volta de 2,2. Acima disso, o excedente vira energia e ureia.
Resistência anabólica tem número: Moore (2015) — para o mesmo estímulo de síntese por refeição, o jovem precisa de cerca de 0,24 g/kg;
o idoso, de cerca de 0,40 g/kg. A mesma dieta constrói tecido no filho e não segura o do pai.
A dose por refeição importa tanto quanto o total diário, e o gatilho é a leucina, por volta de 2,5 a 3 g por refeição.
Na consulta
A frase-âncora: o peso mostra o volume; a massa magra mostra o que não é gordura;
a proteína mostra se existe tecido dentro do volume. É o número que separa músculo de inchaço — e protocolo que funciona de protocolo que só
reteve água.
Conduta-padrão: baseline antes de qualquer protocolo (proteína, BCM, massa muscular, ICW/ECW), reavaliação em 30, 60 e 90 dias sob protocolo
padronizado, classificação num dos quatro padrões e a conduta correspondente.
Albumina sérica tem meia-vida de cerca de três semanas: quando cai, o catabolismo já é antigo.
O índice de proteína em série detecta a tendência antes de o laboratório clássico reagir.
A proteína é o árbitro de todos os protocolos. Ela diz se o que subiu foi tecido — e se o que desceu foi só água.